O treinador português Rui Sacramento, atualmente no comando técnico do Esporte Clube São Bernardo, no Brasil, foi o convidado do 100.º episódio do programa "Entrevista Com". Numa conversa pautada pela frontalidade que lhe é característica, o antigo guarda-redes abordou a sua adaptação ao exigente futebol brasileiro, recordou os momentos altos da sua carreira como jogador e não deixou de lado a polémica saída do Marinhense, que ainda lhe deixa marcas.
A viver uma nova etapa no Brasil, Rui Sacramento
explicou como se processou o regresso ao São Bernardo, clube onde já tinha
estado como adjunto. "O meu agente é o presidente da SAF do São Bernardo. Há
muito tempo, que me falava para eu ser o técnico. O projeto que me apresentou
foi vir para cá organizar o clube, um pouco como os clubes são organizados em
Portugal", revelou.
Sobre a realidade do futebol brasileiro, o técnico destacou a dureza do
calendário e as longas viagens: "O problema no Brasil é mesmo esse, é que
nós jogamos a doze, catorze, dezasseis horas de distância, e é tudo voo
terrestre (risos), ou seja, as viagens são de autocarro. E isso é muito
desgastante".
Um dos momentos mais densos da entrevista prendeu-se com a sua saída do
Marinhense na época passada, antes de um jogo histórico contra o Sporting para
a Taça de Portugal. O treinador acusou a direção do clube de ter orquestrado a
sua saída com falsas acusações de racismo. "O Marinhense quis-me demitir e
não queria que eu fosse ao jogo do Sporting, porque ao fim de cinquenta e
poucos anos o Marinhense ia jogar com o Sporting, e o presidente não queria que
o meu nome ficasse na história", acusou. "A forma que eles
arranjaram, junto com dois ou três jogadores, foi arranjar uma maneira de me
colocar um processo disciplinar e depois dizerem que eu era racista. A resposta
que eu lhes dei foi: 'Eu sou racista ao fim de cem jogos no Marinhense? Ao fim
de cinco anos no Marinhense?'".
Rui Sacramento confessou que o episódio o marcou profundamente, alterando a sua
forma de se relacionar com os plantéis: "Marcou muito. A partir de agora,
a minha relação vai ser atleta-treinador e não vai passar disso. Eu sempre tive
uma relação com os meus atletas de jogador para jogador".
O antigo guardião destacou ainda os pontos altos do seu percurso: "Quantos
jogadores podem dizer que bateram na Liga dos Campeões, na Liga Europa, no
Campeonato Intercontinental e foram internacionais? Conta-se pelos dedos. E eu
fiz isso tudo. Por isso eu estou orgulhoso".
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