"QUANDO NÃO CONSEGUIMOS COMPETIR PELO ORÇAMENTO TEMOS DE TENTAR PELO CONHECIMENTO"


A Scout Vision é uma plataforma portuguesa criada para ajudar clubes, treinadores e scouts a centralizar informação, organizar processos de observação e otimizar o recrutamento de jogadores.

Numa altura em que o scouting assume cada vez maior importância no futebol moderno, o A Bola é Redonda conversou com a Scout Vision para perceber melhor os desafios da observação de jogadores, a realidade do futebol distrital e a importância da organização na tomada de decisões.

Fiquem com a entrevista


A Bola é Redonda (ABR) - Como nasceu a Scout Vision e que problema procurava resolver no futebol português?

Scout Vision (SV) - A Scout Vision nasceu de uma necessidade muito concreta que sentimos ao trabalhar num departamento de scouting: precisávamos de uma ferramenta que permitisse centralizar toda a informação que íamos recolhendo sobre os jogadores. Na altura, essa informação podia ficar dispersa por diferentes documentos, ficheiros, mensagens entre elementos do departamento ou até apontamentos individuais. O desafio não era apenas lidar com muita informação, mas garantir que ela ficava organizada, acessível e disponível para o clube no futuro. Foi dessa necessidade que surgiu a ideia da Scout Vision: criar uma plataforma pensada para a realidade de quem trabalha diariamente no scouting, capaz de centralizar a informação dos jogadores, organizar o processo de observação e, acima de tudo, construir um conhecimento que permanecesse dentro do clube. Começou por ser uma resposta a uma necessidade nossa, mas rapidamente percebemos que era um problema comum a muitos outros clubes e profissionais de scouting.

ABR - Na vossa experiência, quais são os erros mais comuns que os clubes cometem na organização do processo de scouting?

SV - Não diria que são erros por falta de competência, mas sobretudo problemas de organização e de processo. Um dos principais é a falta de uma ferramenta de trabalho que permita centralizar a informação e facilitar a comunicação entre os elementos do departamento. Quando cada pessoa trabalha de uma forma diferente ou quando a informação fica espalhada por vários documentos e canais, torna-se mais difícil garantir que todos têm acesso ao mesmo conhecimento. Também acontece um scout observar um jogador e recolher informação importante que, depois, não é devidamente partilhada ou aproveitada por toda a estrutura. Para nós, o scouting não é apenas descobrir jogadores; é também construir e gerir conhecimento sobre eles. Um bom processo deve permitir que aquilo que é observado hoje fique organizado de forma a continuar útil para o clube daqui a seis meses, um ano ou até mais tarde.

ABR - Ainda existe uma grande dependência de Excel, WhatsApp e apontamentos dispersos. Que impacto pode isso ter na qualidade do recrutamento?

SV - Sim, é uma realidade que encontramos quando falamos com pessoas ligadas ao futebol. Existem profissionais e estruturas que continuam a utilizar Excel, Word e outros documentos para elaborar relatórios, enquanto a comunicação e a partilha de informação acontecem através de grupos de WhatsApp ou aplicações semelhantes. Essas ferramentas podem cumprir perfeitamente a sua função e não são, por si só, o problema; a dificuldade surge quando a informação fica demasiado fragmentada. Quando temos relatórios num documento, observações noutra plataforma, conversas sobre jogadores num grupo de mensagens e informação adicional guardada individualmente por cada scout, torna-se muito mais difícil construir uma visão completa sobre um jogador e garantir que esse conhecimento está disponível para toda a estrutura. Num processo de recrutamento, em que uma decisão é muitas vezes construída a partir de várias observações e opiniões, perder informação ou não a conseguir encontrar pode fazer uma diferença significativa. Mais do que substituir o Excel ou o WhatsApp, o essencial é criar um espaço onde toda a informação relevante esteja organizada, acessível e ligada ao processo de scouting.

ABR - É possível fazer scouting de qualidade nos campeonatos distritais ou continua a existir uma tendência para olhar apenas para os escalões nacionais?

SV- É perfeitamente possível fazer scouting de qualidade nos campeonatos distritais, tanto no futebol de formação como no futebol sénior, e existem casos recentes que o demonstram. Naturalmente, o contexto competitivo é diferente e é preciso saber interpretar aquilo que estamos a observar: um jogador que se destaca num campeonato distrital não pode ser avaliado exatamente da mesma forma que um jogador que compete num campeonato nacional. Isso, no entanto, não significa que deixe de existir talento ou que esses jogadores não devam ser acompanhados. O importante é ter um processo de scouting que permita identificar esses jogadores, avaliá-los dentro do seu contexto e perceber se possuem características que possam ser transportadas para um nível competitivo superior. Acredito que ainda existe uma tendência para olhar mais facilmente para os campeonatos nacionais, onde os jogadores já têm maior exposição, mas uma das funções do scouting deve ser precisamente procurar onde os outros ainda não estão a procurar.

ABR - O futebol está cada vez mais dependente de dados. Como veem a relação entre a análise estatística e a observação presencial de jogadores?

SV - Não vejo os dados e a observação presencial como duas coisas que competem entre si; pelo contrário, acredito que se complementam. Os dados podem ajudar-nos a identificar padrões, filtrar jogadores, perceber determinados comportamentos ou indicadores de rendimento e até decidir onde devemos olhar e quais os jogadores que justificam uma observação mais aprofundada. Ao mesmo tempo, existe uma parte do jogo que dificilmente conseguimos transformar totalmente em números. A forma como um jogador toma decisões, o comportamento sem bola, a compreensão do jogo, a capacidade de adaptação a diferentes contextos ou até determinados aspetos da personalidade continuam a exigir uma observação mais qualitativa. Por isso, os dados não substituem o scout: ajudam-no a ser mais eficiente. No fundo, os dados podem ajudar-nos a saber onde olhar, mas é a observação que nos ajuda a perceber aquilo que estamos realmente a ver.

ABR - Na vossa opinião, o que distingue um bom scout de alguém que simplesmente vê muitos jogos?

SV - Um scout não é simplesmente alguém que vê muitos jogos. Existem muitos apaixonados por futebol que acompanham partidas todos os fins de semana, veem diferentes campeonatos e conhecem muitos jogadores, mas isso não significa necessariamente que tenham capacidade para fazer scouting. A principal diferença está na forma como se observa: um bom scout sabe o que procura, percebe o contexto em que está a avaliar o jogador e consegue retirar do jogo informação relevante para uma determinada necessidade. Também é fundamental saber separar aquilo que é uma opinião pessoal do que é realmente relevante para o clube. Um jogador pode ser muito bom e, ainda assim, não ser o jogador certo para determinada equipa, modelo de jogo ou momento do seu desenvolvimento. No fundo, ver muitos jogos dá-nos contacto com o futebol; fazer scouting exige transformar aquilo que vemos em informação útil para uma decisão.

ABR - O scouting em Portugal está subvalorizado ou os clubes já perceberam a sua importância estratégica?

SV - Acredito que cada vez mais os clubes estão a perceber a importância de investir no scouting e de trabalhar melhor esta área. O futebol está cada vez mais competitivo e, por isso, a capacidade de identificar jogadores, acompanhar talento e tomar decisões de recrutamento com mais informação tornou-se cada vez mais importante para a evolução de um clube. Ainda existe, naturalmente, espaço para profissionalizar e estruturar melhor muitos processos, mas sinto uma preocupação crescente em criar departamentos mais organizados, definir metodologias e utilizar ferramentas que permitam trabalhar melhor a informação. Essa evolução é positiva, porque quanto melhor for o scouting de um clube, maior será a sua capacidade para tomar decisões com conhecimento e pensar não apenas no presente, mas também no futuro.

ABR - Qual é o maior mito que existe sobre o trabalho de um scout?

SV - Provavelmente, o maior mito é pensar que ser scout é simplesmente ver jogos e dizer se um jogador é bom ou mau. Ver um jogo é apenas uma parte do trabalho. Existe todo um processo antes, durante e depois da observação: perceber o perfil que o clube procura, preparar a observação, analisar o contexto, avaliar o jogador, comparar diferentes opções, acompanhar a sua evolução e transmitir essa informação de forma clara a quem vai tomar a decisão. Há ainda outra questão importante: um scout não procura necessariamente os melhores jogadores, mas os jogadores certos para determinado contexto. É por isso que duas pessoas podem ver exatamente o mesmo jogo e chegar a conclusões completamente diferentes. A diferença está na capacidade de observar com um objetivo, interpretar aquilo que se vê e perceber se aquele jogador faz sentido para uma determinada realidade.

ABR - Um bom processo de scouting pode compensar um orçamento reduzido?

SV - Acredito que sim, embora um bom processo de scouting não substitua, obviamente, a capacidade financeira de um clube. Uma equipa com um orçamento mais reduzido dificilmente conseguirá competir financeiramente com clubes de maior dimensão por determinados jogadores, mas pode tentar competir de outra forma: através do conhecimento, da organização e da capacidade de identificar oportunidades antes dos outros. Um bom processo de scouting permite procurar jogadores em mercados ou níveis competitivos menos explorados, acompanhar a evolução de jogadores mais jovens e tomar decisões com mais informação antes de fazer um investimento. Quando não conseguimos competir pelo orçamento, temos de tentar competir pelo conhecimento. É precisamente aí que vejo o scouting como uma ferramenta estratégica: não serve apenas para encontrar jogadores, mas também para encontrar soluções ajustadas à realidade financeira e desportiva do clube.

ABR - Há talento suficiente no futebol distrital português que não está a ser devidamente acompanhado?

SV - Sim, acredito que existe talento no futebol distrital português que ainda não é devidamente acompanhado. Tanto na formação como no futebol sénior existem muitos jogadores que competem longe dos principais focos de atenção e que, por isso, acabam por ter menos oportunidades de serem observados. Um exemplo muito interessante é o de Matheus Nunes: jogava no futebol distrital ao serviço do GDU Ericeirense e, três anos depois, estava a disputar a Champions League pelo Sporting CP, tendo ainda passado pelo GD Estoril Praia. Obviamente, isso não significa que todos os jogadores do futebol distrital tenham potencial para chegar a esse nível. Mostra, sim, que o nível competitivo em que um jogador se encontra num determinado momento não deve ser razão suficiente para deixar de o acompanhar. Esse é precisamente um dos papéis de um bom departamento de scouting: aumentar o campo de visão do clube e garantir que o talento não deixa de ser observado apenas por estar fora dos campeonatos que normalmente recebem mais atenção.


SOBRE A SCOUT VISION

A Scout Vision é uma plataforma portuguesa desenvolvida para apoiar clubes, treinadores e scouts na gestão de bases de dados de jogadores, relatórios, observações e processos de recrutamento.

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