9 de março de 2026

"HÁ PAIS E MÃES QUE VIVEM O FUTEBOL DOS FILHOS COMO SE FOSSE A SUA PRÓPRIA CARREIRA"

Wilson Teixeira é treinador de futebol, atualmente no Marinhense, da Série C do Campeonato de Portugal 

Quando o "amor" dos pais impede o crescimento no futebol

O futebol de formação é, por natureza, um espaço de aprendizagem. Ali crescem atletas, mas sobretudo pessoas. Ensina-se disciplina, espírito de equipa, resiliência e humildade.

Porém, há um fenómeno cada vez mais visível que, muitas vezes, compromete esse processo: os pais que são incapazes de cortar o cordão umbilical com os filhos jogadores e que acreditam, com convicção inabalável, que têm em casa o melhor jogador do mundo.

O problema não está no orgulho, esse é natural e saudável.

O problema começa quando o orgulho se transforma em cegueira. Quando os pais querem decidir quanto é que os filhos devem ganhar ou onde é que os filhos devem jogar.

Há pais e mães que vivem o futebol dos filhos como se fosse a sua própria carreira. Na bancada, não assistem ao jogo: fiscalizam-no. Cada decisão do treinador é questionada. Cada substituição é interpretada como injustiça. Cada crítica ao filho é vista como um ataque pessoal. O futebol deixa de ser um jogo coletivo e passa a ser, na visão desses pais, um palco onde apenas o seu filho deveria brilhar.

Esta postura cria uma pressão enorme sobre os jovens jogadores. 

Em vez de aprenderem a lidar com o erro, com a competição e com a frustração. Elementos fundamentais para qualquer atleta.

Crescem protegidos por uma bolha onde a culpa é sempre dos outros: do treinador, dos colegas, do sistema, do clube.

E quando a realidade chega, chega com força.

Quando os jogadores saem do futebol de formação e entram no futebol sénior, o cenário muda radicalmente. Já não há espaço para ilusões familiares nem para justificações externas. O futebol adulto exige maturidade, autonomia e capacidade de lidar com hierarquias. Os treinadores já não são formadores; são gestores de rendimento. Joga quem está melhor, quem trabalha mais, quem ajuda a equipa.

É precisamente neste momento que muitos jovens, que sempre ouviram em casa que eram excecionais e incompreendidos, entram em choque com a realidade. De repente não são titulares indiscutíveis. De repente há colegas melhores. De repente as oportunidades não aparecem.

E então começa o ciclo: saltam de clube em clube nos primeiros anos após a formação, sempre à procura de um lugar onde alguém finalmente reconheça o “talento injustiçado”. Raramente percebem que o problema pode não estar fora.

Neste percurso, a influência dos pais continua muitas vezes presente. Telefonemas para dirigentes, críticas públicas aos treinadores, discussões nas bancadas ou nas redes sociais. Tudo isto, longe de ajudar, acaba por prejudicar ainda mais o jogador.

No futebol, os balneários sabem tudo. Os colegas sabem quem são os pais problemáticos. Os treinadores também. E, inevitavelmente, a imagem do jogador fica marcada. Mesmo que ele próprio seja correto e trabalhador, a sombra das atitudes familiares acompanha-o.

Além disso, há um aspeto fundamental que muitos pais parecem esquecer: o futebol é um jogo coletivo. Nenhum jogador cresce sozinho. Cresce dentro de um grupo, de uma estrutura, de uma dinâmica onde o respeito pelas regras e pelas pessoas é essencial.

Quando um pai desvaloriza colegas, critica treinadores ou cria conflitos constantes, está a transmitir ao filho uma mensagem perigosa: a de que ele está acima da equipa.

Mas no futebol real ninguém está.

Talvez a maior prova de amor que um pai ou uma mãe pode dar a um filho jogador não seja defendê-lo de tudo e de todos. É deixá-lo cair, errar, ouvir críticas, lutar pelo lugar, aprender com as dificuldades.

Porque quando os jogadores saem da formação, há uma verdade incontornável: são obrigados a crescer.

E crescer implica autonomia.

Implica assumir responsabilidades.

Implica perceber que o talento, por si só, nunca chega.

Os pais que compreendem isto tornam-se aliados silenciosos do percurso dos filhos.

Estão presentes, apoiam, aconselham quando necessário, mas sabem dar espaço.

Sabem que o campo pertence ao jogador.

Os outros, mesmo sem querer, podem transformar o amor num obstáculo.

E no futebol, como na vida, onde já existem tantos obstáculos, poucos são tão difíceis de ultrapassar como aqueles que nascem dentro de casa. ⚽


*Wilson Teixeira é treinador de futebol, atualmente no Marinhense da Série C do Campeonato de Portugal.

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