9 de abril de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO - "A BASE NÃO É O COMEÇO. A BASE É O ALICERCE"



Fernando Mendes é o CEO da Globall Football, empresa dedicada à consultoria e gestão de carreiras no mundo do futebol.

 

A BASE NÃO É O COMEÇO. A BASE É O ALICERCE.

No futebol português continua a cometer-se um erro de fundo: fala-se demasiado do produto final e demasiado pouco da fábrica onde ele é construído.

Fala-se do profissional, da venda, da valorização, da estreia, do mercado, da performance e da montra. Fala-se do topo da pirâmide como se ele existisse por mérito isolado. Não existe. Nunca existiu. O topo só aparece porque alguém, durante anos, trabalhou a base. E quando essa base é fraca, desorganizada ou mal orientada, mais cedo ou mais tarde o edifício abana.

A realidade é simples: o futebol amador continua a ser a grande base de recrutamento dos clubes profissionais em Portugal. É ali, nos clubes de terra, de bairro, de vila e de distrito, que se encontram milhares de jovens atletas. É ali que começa a triagem. É ali que se moldam comportamentos, se corrigem defeitos, se criam hábitos, se alimenta o sonho e se separa, muito cedo, quem pode crescer de quem será deixado para trás.

Mas há uma verdade que muitos não gostam de ouvir: o futebol amador não pode continuar eternamente escondido atrás da falta de condições.

Sim, faltam campos melhores. Sim, faltam balneários, transportes, recursos, apoio técnico, dinheiro e muitas vezes até respeito institucional. Mas também falta, em muitos casos, organização, exigência, visão, competência e coragem para fazer diferente.

Nem tudo se explica com a pobreza de meios. Há clubes com pouco que fazem muito e há clubes com pouco que fazem quase nada de jeito. A diferença está quase sempre na liderança e na seriedade com que se encara a formação.

O futebol de formação não é um parque de estacionamento de miúdos até chegar a hora do jogo. Também não é um espaço de vaidades de dirigentes, pais histéricos ou treinadores mal preparados. Formar é muito mais do que treinar. Formar é construir jogadores, mas antes disso é construir pessoas.

E é precisamente aqui que começam os factores que tantos clubes continuam a negligenciar.

A escola e o aproveitamento escolar

Continuam a ser tratados como tema lateral, quando deviam estar no centro de qualquer projecto sério. No futebol moderno, a inteligência não se mede apenas pelo gesto técnico ou pela leitura táctica. Mede-se também pela capacidade de compreender, interpretar, decidir, adaptar-se e aprender depressa. Um jovem com hábitos de estudo, com disciplina mental e com melhor desenvolvimento intelectual está quase sempre mais preparado para responder às exigências do jogo actual.

No entanto, quantos clubes amadores têm uma sala de estudo? Quantos criam um espaço mínimo para os jovens fazerem os trabalhos de casa antes ou depois do treino? Quantos acompanham realmente o rendimento escolar dos atletas? Muito poucos.

Depois admiram-se quando o jogador não interpreta bem o jogo, não percebe estímulos mais complexos, não assimila processos ou revela limitações na tomada de decisão. O futebol decide-se cada vez mais ao detalhe. E o detalhe também se constrói na escola.

A nutrição

É outro campo onde se continua a trabalhar mal ou, em muitos casos, simplesmente não se trabalha. Ainda há quem pense que alimentação é assunto para o profissionalismo. Não é. É assunto de base. Um jovem mal alimentado compromete crescimento, recuperação, energia, concentração, prevenção de lesões e equilíbrio competitivo. Não é preciso ter um nutricionista residente para fazer melhor. É preciso, isso sim, perceber que educar também é ensinar a comer melhor.

O acompanhamento psicológico

É outra área empurrada para debaixo do tapete. Treinadores de formação lidam todos os dias com jovens atravessados por medos, inseguranças, problemas em casa, dificuldades na escola, conflitos amorosos, instabilidade emocional, pressão dos pais e falta de confiança. E muitos treinadores continuam a ser largados neste terreno sem ferramentas mínimas para entender o que têm à frente.

Há jovens com enorme talento técnico, táctico e físico que não dão o salto por um bloqueio mental básico: não acreditam neles próprios. E o pior é que, muitas vezes, ninguém detecta isso a tempo. Fala-se de falta de atitude, falta de personalidade ou falta de ambição, quando o problema real está na fragilidade emocional do atleta. Formar também é saber ler gente. E quem treina jovens sem perceber isto anda a trabalhar pela metade.

A literacia desportiva e financeira

Devia ser obrigatória em qualquer contexto formativo decente. Os jovens têm de perceber o que é fair play, disciplina, responsabilidade, respeito pelas regras, papel do árbitro, noção de grupo e compromisso com o clube. Mas têm também de começar a ouvir falar de contratos, agentes, comissões, impostos, gestão de dinheiro, carreira e consequências de más escolhas.

Porque alguns poucos chegarão ao profissionalismo. E se chegarem sem qualquer preparação, serão devorados pelos mesmos oportunistas que infestam demasiados campos.

Os charlatães do futebol jovem

Continuam a circular com uma facilidade escandalosa. Aproximam-se dos pais, prometem testes, clubes, contactos, contratos e um futuro de luxo. Vendem fumo a famílias frágeis e a miúdos sedentos de sonho. Em demasiados casos, os clubes preferem assobiar para o lado em vez de preparar os jovens para reconhecer estes predadores do costume. Isso também é falhar na formação.

Os pais

Há pais que ajudam muito. Mas há outros que estragam quase tudo. Pressionam, insultam, interferem, confundem o papel deles com o do treinador, desrespeitam árbitros, directores, adversários e até os próprios filhos. O futebol de formação português continua cheio de bancadas doentes. E isso não se resolve apenas com comunicados de circunstância. Resolve-se educando, enquadrando e impondo limites.

Os jovens atletas também têm de aprender isto: respeito por eles próprios, pelos colegas, pelos treinadores, pelos directores, pelos árbitros e pelas forças da ordem não é negociável.

A sustentabilidade

Tantas vezes usada como palavra bonita em apresentações e protocolos, deve entrar na formação de forma prática. Respeitar o ambiente, evitar desperdícios, usar bem a água, cuidar dos espaços, preservar materiais e perceber que o futuro exige responsabilidade colectiva não é conversa secundária. É educação básica. E um clube formador que ignore isso está a formar gente incompleta.

Proteger o talento também faz parte de formar

Há ainda uma última nota que o futebol amador não pode continuar a ignorar: a necessidade de identificar cedo os seus talentos de maior potencial e protegê-los de forma séria e legal.

Em Portugal, continua a existir o hábito, demasiado frequente, de clubes profissionais convidarem jovens atletas do futebol amador para trials, observações e períodos de experiência que, em muitos casos, servem mais para contornar responsabilidades do que para avaliar com transparência. O problema é que, quando esses jovens acabam por ser recrutados, os clubes de origem ficam demasiadas vezes de mãos a abanar, depois de anos de trabalho, dedicação, investimento humano e paciência formativa.

Isto é abusivo. E só continua a acontecer com tanta facilidade porque muitos clubes amadores persistem em não proteger atempadamente os atletas que mais facilmente entram no radar dos emblemas profissionais.

Detectar precocemente os jogadores com maior potencial não deve servir apenas para os promover desportivamente. Deve servir também para os enquadrar, acompanhar e salvaguardar do ponto de vista legal e contratual. Sempre dentro da lei, os clubes têm de perceber que os contratos de formação, ou outros mecanismos de protecção admissíveis, não são um luxo nem uma obsessão burocrática. São uma ferramenta de defesa mínima perante um sistema onde, demasiadas vezes, o mais forte aproveita-se da fragilidade organizativa do mais fraco.

Quem forma tem de saber proteger. Quem investe anos num jovem não pode continuar a assistir, passivamente, à sua saída sem salvaguarda, sem estratégia e sem retorno.

O futebol amador não pode limitar-se a formar para os outros. Tem de formar com competência, mas também com inteligência, visão e capacidade de defesa dos seus próprios interesses.

Porque, num ecossistema tantas vezes desigual, ingenuidade não é virtude. É prejuízo.

A conversa tem de mudar

Não basta dizer que se aposta na formação. É preciso provar como se aposta. Não basta ter equipas jovens. É preciso saber para que servem e como são trabalhadas. Não basta esperar que um talento apareça. É preciso construir um ecossistema que o prepare.

O futebol português gosta muito de celebrar o talento que chega ao topo, mas continua a tratar com ligeireza o lugar onde esse talento devia ser realmente moldado. E isso é ainda mais grave no futebol amador, porque é aí que tudo começa. Ou devia começar bem.

A verdade nua e crua é esta: muitos clubes amadores fazem o que podem, mas demasiados continuam a fazer menos do que deviam. E enquanto isso acontecer, continuaremos a perder talento, inteligência, carácter e futuro.

A base não serve apenas para lançar jogadores. Serve para construir seres humanos mais preparados, atletas mais completos e um futebol mais inteligente.

Quem continuar a olhar para a formação como uma obrigação burocrática ou uma simples montra de fim-de-semana não está apenas a falhar com os jovens. Está a falhar com o futuro do futebol português.


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