Fernando Mendes é o CEO da Globall Football, empresa dedicada à consultoria e gestão de carreiras no
mundo do futebol.
A BASE NÃO É O COMEÇO. A BASE É O ALICERCE.
No futebol português continua a cometer-se um erro de fundo:
fala-se demasiado do produto final e demasiado pouco da fábrica onde ele é
construído.
Fala-se do profissional, da venda, da valorização, da
estreia, do mercado, da performance e da montra. Fala-se do topo da pirâmide
como se ele existisse por mérito isolado. Não existe. Nunca existiu. O topo só
aparece porque alguém, durante anos, trabalhou a base. E quando essa base é
fraca, desorganizada ou mal orientada, mais cedo ou mais tarde o edifício
abana.
A realidade é simples: o futebol amador continua a ser a
grande base de recrutamento dos clubes profissionais em Portugal. É ali, nos
clubes de terra, de bairro, de vila e de distrito, que se encontram milhares de
jovens atletas. É ali que começa a triagem. É ali que se moldam comportamentos,
se corrigem defeitos, se criam hábitos, se alimenta o sonho e se separa, muito
cedo, quem pode crescer de quem será deixado para trás.
Mas há uma verdade que muitos não gostam de ouvir: o futebol
amador não pode continuar eternamente escondido atrás da falta de condições.
Sim, faltam campos melhores. Sim, faltam balneários,
transportes, recursos, apoio técnico, dinheiro e muitas vezes até respeito
institucional. Mas também falta, em muitos casos, organização, exigência,
visão, competência e coragem para fazer diferente.
Nem tudo se explica com a pobreza de meios. Há clubes com
pouco que fazem muito e há clubes com pouco que fazem quase nada de jeito. A
diferença está quase sempre na liderança e na seriedade com que se encara a
formação.
O futebol de formação não é um parque de estacionamento de
miúdos até chegar a hora do jogo. Também não é um espaço de vaidades de
dirigentes, pais histéricos ou treinadores mal preparados. Formar é muito mais
do que treinar. Formar é construir jogadores, mas antes disso é construir
pessoas.
E é precisamente aqui que começam os factores que tantos
clubes continuam a negligenciar.
A escola e o aproveitamento escolar
Continuam a ser tratados como tema lateral, quando deviam
estar no centro de qualquer projecto sério. No futebol moderno, a inteligência
não se mede apenas pelo gesto técnico ou pela leitura táctica. Mede-se também
pela capacidade de compreender, interpretar, decidir, adaptar-se e aprender
depressa. Um jovem com hábitos de estudo, com disciplina mental e com melhor
desenvolvimento intelectual está quase sempre mais preparado para responder às
exigências do jogo actual.
No entanto, quantos clubes amadores têm uma sala de estudo?
Quantos criam um espaço mínimo para os jovens fazerem os trabalhos de casa
antes ou depois do treino? Quantos acompanham realmente o rendimento escolar
dos atletas? Muito poucos.
Depois admiram-se quando o jogador não interpreta bem o
jogo, não percebe estímulos mais complexos, não assimila processos ou revela
limitações na tomada de decisão. O futebol decide-se cada vez mais ao detalhe.
E o detalhe também se constrói na escola.
A nutrição
É outro campo onde se continua a trabalhar mal ou, em muitos
casos, simplesmente não se trabalha. Ainda há quem pense que alimentação é
assunto para o profissionalismo. Não é. É assunto de base. Um jovem mal
alimentado compromete crescimento, recuperação, energia, concentração,
prevenção de lesões e equilíbrio competitivo. Não é preciso ter um
nutricionista residente para fazer melhor. É preciso, isso sim, perceber que
educar também é ensinar a comer melhor.
O acompanhamento psicológico
É outra área empurrada para debaixo do tapete. Treinadores
de formação lidam todos os dias com jovens atravessados por medos,
inseguranças, problemas em casa, dificuldades na escola, conflitos amorosos,
instabilidade emocional, pressão dos pais e falta de confiança. E muitos
treinadores continuam a ser largados neste terreno sem ferramentas mínimas para
entender o que têm à frente.
Há jovens com enorme talento técnico, táctico e físico que
não dão o salto por um bloqueio mental básico: não acreditam neles próprios. E
o pior é que, muitas vezes, ninguém detecta isso a tempo. Fala-se de falta de
atitude, falta de personalidade ou falta de ambição, quando o problema real
está na fragilidade emocional do atleta. Formar também é saber ler gente. E
quem treina jovens sem perceber isto anda a trabalhar pela metade.
A literacia desportiva e financeira
Devia ser obrigatória em qualquer contexto formativo
decente. Os jovens têm de perceber o que é fair play, disciplina,
responsabilidade, respeito pelas regras, papel do árbitro, noção de grupo e
compromisso com o clube. Mas têm também de começar a ouvir falar de contratos,
agentes, comissões, impostos, gestão de dinheiro, carreira e consequências de
más escolhas.
Porque alguns poucos chegarão ao profissionalismo. E se
chegarem sem qualquer preparação, serão devorados pelos mesmos oportunistas que
infestam demasiados campos.
Os charlatães do futebol jovem
Continuam a circular com uma facilidade escandalosa.
Aproximam-se dos pais, prometem testes, clubes, contactos, contratos e um
futuro de luxo. Vendem fumo a famílias frágeis e a miúdos sedentos de sonho. Em
demasiados casos, os clubes preferem assobiar para o lado em vez de preparar os
jovens para reconhecer estes predadores do costume. Isso também é falhar na
formação.
Os pais
Há pais que ajudam muito. Mas há outros que estragam quase
tudo. Pressionam, insultam, interferem, confundem o papel deles com o do
treinador, desrespeitam árbitros, directores, adversários e até os próprios
filhos. O futebol de formação português continua cheio de bancadas doentes. E
isso não se resolve apenas com comunicados de circunstância. Resolve-se
educando, enquadrando e impondo limites.
Os jovens atletas também têm de aprender isto: respeito por
eles próprios, pelos colegas, pelos treinadores, pelos directores, pelos
árbitros e pelas forças da ordem não é negociável.
A sustentabilidade
Tantas vezes usada como palavra bonita em apresentações e
protocolos, deve entrar na formação de forma prática. Respeitar o ambiente,
evitar desperdícios, usar bem a água, cuidar dos espaços, preservar materiais e
perceber que o futuro exige responsabilidade colectiva não é conversa
secundária. É educação básica. E um clube formador que ignore isso está a
formar gente incompleta.
Proteger o talento também faz parte de formar
Há ainda uma última nota que o futebol amador não pode
continuar a ignorar: a necessidade de identificar cedo os seus talentos de
maior potencial e protegê-los de forma séria e legal.
Em Portugal, continua a existir o hábito, demasiado
frequente, de clubes profissionais convidarem jovens atletas do futebol amador
para trials, observações e períodos de experiência que, em muitos casos,
servem mais para contornar responsabilidades do que para avaliar com
transparência. O problema é que, quando esses jovens acabam por ser recrutados,
os clubes de origem ficam demasiadas vezes de mãos a abanar, depois de anos de
trabalho, dedicação, investimento humano e paciência formativa.
Isto é abusivo. E só continua a acontecer com tanta
facilidade porque muitos clubes amadores persistem em não proteger
atempadamente os atletas que mais facilmente entram no radar dos emblemas
profissionais.
Detectar precocemente os jogadores com maior potencial não
deve servir apenas para os promover desportivamente. Deve servir também para os
enquadrar, acompanhar e salvaguardar do ponto de vista legal e contratual.
Sempre dentro da lei, os clubes têm de perceber que os contratos de formação,
ou outros mecanismos de protecção admissíveis, não são um luxo nem uma obsessão
burocrática. São uma ferramenta de defesa mínima perante um sistema onde,
demasiadas vezes, o mais forte aproveita-se da fragilidade organizativa do mais
fraco.
Quem forma tem de saber proteger. Quem investe anos num
jovem não pode continuar a assistir, passivamente, à sua saída sem salvaguarda,
sem estratégia e sem retorno.
O futebol amador não pode limitar-se a formar para os
outros. Tem de formar com competência, mas também com inteligência, visão e
capacidade de defesa dos seus próprios interesses.
Porque, num ecossistema tantas vezes desigual, ingenuidade
não é virtude. É prejuízo.
A conversa tem de mudar
Não basta dizer que se aposta na formação. É preciso provar
como se aposta. Não basta ter equipas jovens. É preciso saber para que servem e
como são trabalhadas. Não basta esperar que um talento apareça. É preciso
construir um ecossistema que o prepare.
O futebol português gosta muito de celebrar o talento que
chega ao topo, mas continua a tratar com ligeireza o lugar onde esse talento
devia ser realmente moldado. E isso é ainda mais grave no futebol amador,
porque é aí que tudo começa. Ou devia começar bem.
A verdade nua e crua é esta: muitos clubes amadores fazem o
que podem, mas demasiados continuam a fazer menos do que deviam. E enquanto
isso acontecer, continuaremos a perder talento, inteligência, carácter e
futuro.
A base não serve apenas para lançar jogadores. Serve para
construir seres humanos mais preparados, atletas mais completos e um futebol
mais inteligente.
Quem continuar a olhar para a formação como uma obrigação
burocrática ou uma simples montra de fim-de-semana não está apenas a falhar com
os jovens. Está a falhar com o futuro do futebol português.

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