
Vítor Gamito deixa o Rebordosa, após dois anos positivos no clube
Após duas temporadas marcantes ao serviço do Rebordosa, Vítor Gamito encerrou o seu ciclo no clube, deixando para trás registos históricos, mas também a frustração de falhar a tão desejada subida de divisão. Em entrevista exclusiva ao A Bola é Redonda, o treinador fala, pela primeira vez, da sua saída, faz o balanço da sua passagem pelo emblema rebordosense, explica os motivos da saída e analisa a quebra na fase de subida.
A Bola é Redonda (ABR) - "Só é lembrado quem vence
títulos e alcança promoções". Mister, esta frase foi proferida por si no
podcast. O Rebordosa falhou essas metas. Acredita que o que fez no clube não
será lembrado no futuro?
Vítor Gamito (VG) - Sim, é verdade, quem vence títulos
e alcança grandes objetivos é quem deixa o seu nome na história. Falhámos a
subida de divisão num playoff duro e assumimos essa responsabilidade. Contudo,
creio que a nossa passagem por Rebordosa deixa uma marca indelével no clube com
a melhor campanha de sempre na Taça de Portugal ao chegar aos oitavos-de-final em
24/25, a melhor classificação de sempre do clube, com o primeiro lugar na fase regular
em 25/26 e presença inédita no playoff de subida, e o record de invencibilidade
em toda a história do Campeonato de Portugal, com 25 jogos sem perder. Não terminando como gostaríamos,
estamos convictos que esta passagem pelo clube será lembrada como bem-sucedida, e esperamos ter criado bases para o clube continuar a competir a este nível no
futuro.
ABR - Foi por isso que quis sair do Rebordosa? Não tinha
condições para continuar?
VG - Não, esta minha decisão nada tem a ver com o
sucesso/insucesso da fase de subida. Foi uma decisão maturada em função daquilo
que é a minha gestão de carreira, onde entendi que seria importante encerrar o
ciclo no Rebordosa AC no final desta época e como tal, não analisei
objetivamente se teria ou não condições para continuar.
ABR - Olhando para trás, como sente que deixou o
Rebordosa, relativamente ao estado em que estava quando chegou?
VG - Herdei um plantel com elevados níveis de
compromisso e hábitos de treino, pelo excelente trabalho que o mister Arlindo
Gomes fez nos quatro anos antecedentes à minha chegada ao clube, e que serviu de
base para implementarmos as nossas ideias e metodologia. Penso que deixamos no
clube uma maior profissionalização do seu dia-a-dia, com a introdução de várias
ferramentas de otimização da performance desportiva que serão certamente
aproveitadas, a capacidade de competir a níveis que ainda não havia experienciado
e a ambição sem limites, que foi a imagem de marca deste nosso trajeto.
ABR - A quebra na II Fase do campeonato foi notória desde
o início. Na sua opinião, o que esteve na origem dessa quebra de
resultados?
VG - Penso que não há um único fator que se possa
dizer que foi a origem dessa quebra, e tudo o que se possa dizer sobre o tema
nesta altura, pode soar a desculpa. Essa reflexão foi feita internamente e serve
para crescimento futuro, quer da parte da estrutura, quer da equipa técnica. O mais
importante é assumirmos a responsabilidade, pois não correspondemos às expetativas
criadas por nós próprios, pela fase regular que fizemos. O binómio tempo em
desvantagem no marcador e tempo em desvantagem numérica, foram constrangimentos
que podem justificar a quebra de performance na fase final.
VG - Quem acompanhou a nossa equipa nestes últimos dois anos, sente perfeitamente que acreditamos sempre até ao fim, por mais adversa
que fosse a situação. No início do campeonato, quando ninguém nos colocava no
lote dos favoritos, fomos os primeiros a acreditar que era possível e a
balizar a subida de divisão como objetivo. Fomos única equipa pós-laboral
presente na Fase de Subida e esse facto diz muito sobre o caráter, a ambição e
compromisso deste grupo.
ABR - Que ensinamentos retira desta experiência?
VG - O principal ensinamento desta época é a
validação de algo que já sabia: o futebol é o momento.
ABR - Olhando para os clubes que vão disputar a final,
quem acredita que vencerá o Campeonato de Portugal: Leça ou Vitória de
Sernache?
VG - Uma final é sempre um jogo de resultado muito
incerto. O Leça teve uma trajetória ascendente, terminou a época em ótima forma
e tem um excelente plantel bem orientado. Não conheço muito do Vitória de Sernache,
mas para estar na final é porque tem muito valor. Será, certamente, um jogo
competitivo e um jogo de festa, onde qualquer uma das 56 equipas queria estar.
ABR - Já tem algum projeto para o futuro, ou ainda não
surgiram contactos?
VG - Sim, já surgiram contactos e abordagens, mas
ainda não está definido qual será o próximo projeto. Ambicionamos que seja um
passo em frente.
ABR - Deixe uma mensagem aos sócios e adeptos do
Rebordosa.
VG - Agradecer-lhes o carinho e a forma como fui
recebido em Rebordosa. Os adeptos são a alma do clube e foi notório o
crescimento da massa adepta ao longo destes dois anos. Que a desilusão do final
desta época não seja de desânimo, mas sirva como combustível para as conquistas
vindouras.
ABR - Deixe uma mensagem aos adeptos do futebol, no
geral.
VG - Em ano de Mundial, voltamos a lembrar-nos daquilo que o futebol tem de mais forte: a capacidade de unir um país inteiro. Que esse espírito não exista apenas na Seleção, mas também no futebol nacional no dia-a-dia. Mais sentido coletivo, mais respeito e a noção de que quando o futebol português cresce, crescemos todos juntos. Valorizar aquilo que é nosso!

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